Apresentação

A ideia deste blog surgiu na sequência de um interesse profundo pelos acontecimentos que, no período da  Segunda Guerra Mundial, tiveram lugar no lado português de Timor, agora Timor Leste ou Timor Lorosae. É um interesse que começa por um tio cuja figura me fascina desde a infância — um tio que foge para as montanhas para lutar contra a ocupação japonesa — e acaba na descoberta de toda uma história para mim e, suspeito, para muitos portugueses, quase desconhecida.

A primeira versão dos acontecimentos que ouvi foi a famíliar. Muito incompleta, dizia que o meu tio-avô Augusto de Mattos e Silva teria fugido para as montanhas para defender os timorenses que chefiava e combater os japoneses. Ter-se-á entregue às tropas inimigas depois da ameaça de chacina de uma família inteira de timorenses à sua guarda e, na sequência desse facto, morrido na prisão vítima dos maus tratos e da doença contraída nos meses de mato. É uma versão muito próxima da verdade, mas havia (há?) muito mais para descobrir.

Um dia, com bastante tempo, resolvi procurar sem qualquer sistematização o nome do meu tio através do Google. Um dos resultados devolveu-me o nome de um livro: Forgotten Men – Timorese in Special Operations during World War II de Ernest Chamberlain. O autor, um investigador australiano, ex-militar, narra nessa obra a forma como timorenses e portugueses colaboraram com os serviços secretos militares australianos (Services Reconaissance Department – SRD) principalmente depois da retirada das últimas tropas australianas do território. Um dos personagens do livro, operador de rádio nas montanhas de Timor com a missão de passar informações para o “mainland” australiano, era nem mais nem menos que o meu tio Augusto.

Foi o incentivo de que precisava para uma procura que me levou muito mais longe: à questão da neutralidade e da forma como Salazar tratou desta questão com japoneses e aliados, à história da invasão da ilha por tropas aliadas apesar de termos com a Grã Bretanha a mais antiga aliança em vigor, às divisões entre portugueses e entre timorenses  no território durante a ocupação japonesa, à reocupação da ilha pelas autoridades portuguesas e seu papel na negociação do acordo de cedência das bases aéreas dos Açores.  Isto, para citar apenas alguns exemplos. Depois, foi começar por saber que bibliografia existia sobre o assunto, procurar artigos e teses e pedir ajuda a amigos como a Fátima Pariarca que, para além de outras coisas, cheia de paciência me ensinou a orientar-me na Torre do Tombo.

De tudo o que até agora pude ler em documentos, livros e artigos, fica-me, para além do conhecimento dos factos ou da visão que deles têm os personagens, a convicção de que a tragédia que assolou a ilha de Timor, porque foi de facto uma tragédia como iremos vendo à medida que este blog for crescendo, teve como grandes vítimas gente sem qualquer implicação no desenrolar da Grande Guerra e que, de um modo impiedoso, se vê literalmente usada pelos intervenientes nos complicados equilíbrios diplomáticos da época. Desde o abandono pela própria pátria em nome da neutralidade, à táctica japonesa das colunas negras que dividiu timorenses de uma forma que viria, mais tarde, a ser reeditada pela Indonésia, Portugal, Japão e Austrália todos eles de alguma forma usaram os habitantes do território como melhor lhes convinha.

Este é um projecto pessoal e por isso, não sendo historiador, não me sinto obrigado a uma suposta neutralidade perante os factos. Penso que nós, portugueses, temos uma relação no mínimo estranha com a memória; se por um lado nos reclamamos do Fado e da saudade, somos por outro muito rápidos a esquecer alguns dos acontecimentos da nossa história. Talvez isso explique que não haja no nosso país uma instituição que, como a Australian War Memorial ou os National Archives americanos, preserve de forma sistemática a lembrança dos que combateram (ou ainda combatem) em nome do país. Talvez por não sermos capazes de distinguir aquilo que é história de complexos políticos ainda persistentes, evitamos constantemente todos os factos que, de alguma forma ligados ao nosso passado colonial recente ou com o regime autoritário, não sirvam como exemplo de oposição a esse mesmo tempo. Fugimos também dos nossos falhanços e só assim se pode explicar a vergonha que é o esquecimento de, por exemplo, milhares de jovens mortos nas trincheiras da 1ª Grande Guerra. O sub-título do blog Contributos para uma Memória Portuguesa do Conflito é por isso reflexo da vontade de, na medida em que o possa, fazer alguma coisa para que este pedaço da nossa memória não morra de vez. É ainda um projecto português, na medida em que uma visão do papel de Portugal e dos portugueses nos acontecimentos será preponderante. O critério dos números não será o principal; se assim fosse, o sacrifício de milhares de timorenses entre 1942 e 1945 teria que ser o ponto central de todo o projecto. Não os esquecendo, os timorenses são hoje em dia um povo independente e com direito a uma voz no mundo e, mais tarde ou mais cedo, serão os próprios a fazer essa história.

João Tinoco

Nota: Os textos irão aparecendo no site sem uma ordem cronológica obrigatória.  Tentarei no entanto, sempre que possível, colocar uma data ou etiqueta que contenha uma referência temporal. Cada artigo terá um tema o que não implica que esse mesmo tema não venha a ser retomado, em artigo posterior, sempre que tal se justifique. O objectivo dos textos apresentados será a divulgação de factos e acontecimentos mais do que de estudos aprofundados sobre as matérias que estes versam. Nessa medida, também é opção deste blog a não introdução de notas nos textos senão quando absolutamente necessárias. Uma secção de bibliografia e fontes consultadas irá sendo construida ao longo do tempo.


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